segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Sou tal como me amo

Recebi essa frase paradoxal do Bachelard de minha amiga Monica Iaromila para coroar uma manhã cinzenta na nossa cidade de ‘areia e cimento e completo alheamento’*. Esse gris que nasceu com o dia, depois de ter assistido ao filme Melancolia, de Lars Von Trier, pareceu-me estranhamente melancólico, propício a reflexões. A frase 'sou tal como me amo' se configurou um pequeno enigma: torno-me aquilo que mais amo em mim ou me amo como sou? 
Venho há uns dias pensando sobre identidade, a minha e a do outro. O que dizer do outro, como o amamos? O que ele é ou o que gostaríamos que fosse? Fantasia e projeção. Gabaritos e papéis. Como crianças, vamos criando nossas estórias e distribuindo os roteiros. Para a coxia os maus atores, premiamos aqueles que seguem suas falas e atos de acordo com nossa idiossincrásica direção. Até se rebelarem, é claro. E decidirem criar suas próprias cenas. Aí, os lançamos ao ostracismo. E convocamos outros para testes, para serem coadjuvantes no nosso filme. 
Lorena Vita postou um vídeo em que Deleuze afirma que o charme das pessoas reside precisamente em sua demência e só podemos realmente gostar de alguém se captamos este ponto de sua loucura. Concordo totalmente com sua filosófica afirmação mas, ainda assim, sei que o conceito não resiste muita na prática do cotidiano, quando então a grande maioria de nós deseja estabilidade e segurança, espera e cobra isso do parceiro/parceira. Apaixonamo-nos pela loucura, mas na continuidade, preferimos certa lucidez. Talvez porque, como afirma Edson Moreira, sejamos ‘masoquistas submissos aos gabaritos sociais pois é mais cômodo seguir o rebanho’. Ou porque, no fundo, necessitemos mais de concreto que de areia movediça sob nossos pés. Já que de vertigem e angústia todos nós já possuímos um tanto, necessitamos menos da loucura que da lucidez, embora a primeira nos atraia mais.
E o que nos atrai em personagens como a Betty – do filme Betty Blue - esse traço singular e ligeiramente demente, é precisamente o que nos apavora no decorrer da trama. As excitantes surpresas de uma personalidade exótica podem rapidamente se transformar no nosso pior pesadelo. Por que comumente pensamos que temos controle sobre o gênio alheio se até nossa própria loucura nos escapa? 
A personagem Justine, do filme Melancolia, vai revelando sua própria fragilidade e no ápice da loucura encontra lucidez - porque ‘sabe das coisas’, segundo suas próprias palavras – para agir diante de um mundo que lhe é indiferente e a consome como a uma engrenagem. “O que você esperava?”, pergunta ela para um noivo atônito. 
E o que esperamos quando abrimos nossa porta para as Bettys entrarem com suas bagagens ou desposamos as Justines que nos seduzem com seu ‘canto de sereias’ para um Ulisses esfaimado? Que se transformem repentinamente em Marthas Stewarts? Se até ela agia segundo sua ‘própria lei’ até ser julgada e condenada pela ‘lei dos homens’...
Não alimentemos o traço de demência que confere a singularidade ao outro nos iludindo que, quando nos convier, magicamente o faremos desaparecer. Alguns pássaros é melhor manter soltos. Certa vez na minha infância, vi um pássaro selvagem enlouquecer de melancolia até a morte por ser privado de sua liberdade. Em cavalo indomado não se ateiam rédeas. Talvez por isso todos nós padeçamos, de um modo ou de outro, dessa certa dose de demência da qual Deleuze fala ou de depressão. Porque todos somos, de um modo ou de outro, pássaros e cavalos selvagens cada vez mais privados de seus instintos naturais, socados em caixas de papelão ou nos pequenos estábulos dos gabaritos que nos são impostos ou que nos impomos. É para isso que servem o processo civilizatório e a sociedade, para colocar termo nos instintos humanos, circunscrever-nos nas gaiolas de ouro ou metais menos nobres. Somos o gado na estrebaria, mantidos 'sob controle'.
E, como seria se não houvesse os gabaritos sociais e as leis, já que "a natureza humana é perversa”? Sobre isso, temos Sade, Von Trier, Trufautt, Malick,  Kieslowski e muitos outros para nos lembrar constantemente, para revelar nossa sombra. O que talvez nos falte é alguém nos lembrando de nossa luz, de que somos mais do que pó que ao pó retornará. Afinal, a lama é uma mistura de terra e água. A terra acolhe e a água iliba e ambas nutrem. Talvez nos falte mergulhar na lama de nossa própria loucura para sair lavados pela nossa própria lucidez. Afinal, quais os limites entre uma e outra? Não existe aí uma convergência?
Até onde sei, há um núcleo inabalável dentro de cada um de nós, que se encontra vez por outra em meio as tormentas emocionais, como a um bote salva-vidas. Aqueles que estiveram muito próximos das fronteiras de si mesmos e retornaram certamente sabem do que estou falando. E provavelmente se amam tal como são.
Só sei de mim, na loucura e na lucidez. E eu sou tal como me amo.



* paráfrase de Roseli Silva

Um comentário:

Mônica Valéria Iaromila disse...

Gostei muito do texto e terminar com Deleuze foi fenomenal. A primeira vez que assisti esse pequeno vídeo o repeti tantas vezes.. pq me ressonou familiar como o ronronar de Gandalf.. reconhecer a loucura do outro é certamente reconhecer um reflexo de nossa própria loucura e demência.